“Nosso Segredo”, de Grace Passô, estreia na competição do Cinélatino Toulouse, na França. O longa reafirma uma assinatura autoral que opera nas fissuras entre linguagens. Um filme que persiste em reconfigurar suas próprias gramáticas e insiste em tensionar silêncios, memórias e afetos. ★★★★☆ 

O cinema brasileiro contemporâneo volta a ocupar o centro das atenções internacionais com a estreia de Nosso Segredo, primeiro longa-metragem dirigido por Grace Passô, na competição oficial do Cinélatino Toulouse. Após passagem pela Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde integrou a mostra Perspectives, o filme chega à sua segunda grande vitrine europeia reafirmando não apenas a potência autoral da diretora, mas também a vitalidade de um cinema brasileiro que insiste em tensionar linguagem, memória e afetos.

Realizado na cidade de Toulouse, o festival — que em 2026 chega à sua 38ª edição — consolidou-se como um dos principais espaços de difusão do audiovisual latino-americano na Europa. Ao reunir cerca de 90 títulos entre ficções e documentários, o evento funciona como uma plataforma de circulação e debate, conectando realizadores e público em torno de narrativas que atravessam territórios, identidades e urgências políticas. A presença de Passô, que participa de um encontro com espectadores após a exibição, reforça essa dimensão dialógica, cara ao próprio gesto artístico da cineasta.

Mais conhecida até então por sua atuação decisiva no teatro brasileiro — onde construiu uma trajetória marcada por experimentações, rigor político e invenção dramatúrgica — Grace Passô faz, com Nosso Segredo, uma transposição consistente e brilhante de sua linguagem para o cinema. Não se trata apenas de uma estreia, mas da afirmação de um projeto estético que já vinha sendo ensaiado em trabalhos anteriores, como o média Vaga Carne e o premiado curta República. Aqui, no entanto, a escala se amplia, assim como a ambição e a potência da narrativa.

Cena de “Nosso Segredo”, de Grace Passô

O filme acompanha uma família negra em processo de reorganização após uma perda recente. O luto, longe de ser tratado como experiência homogênea, se desdobra em silêncios, desvios e tentativas individuais de sobrevivência emocional. No centro da trama, o filho mais novo guarda um segredo — elemento que funciona menos como dispositivo de suspense e mais como chave simbólica para acessar camadas profundas de dor, memória e possibilidade de reinvenção coletiva.

Há, nesse ponto, um dos movimentos mais sofisticados do filme: a recusa em transformar o trauma em espetáculo. Em vez disso, Grace Passô investe em uma narrativa que privilegia o gesto mínimo, a escuta e a suspensão, aproximando-se de um cinema sensorial em que o tempo interno dos personagens importa mais do que a progressão dramática convencional. O segredo anunciado no título não é apenas um dado narrativo, mas uma metáfora para aquilo que permanece não dito — e que, justamente por isso, estrutura relações, afetos e rupturas.

Produzido por Ricardo Alves Jr., o longa nasce de uma rede de coproduções que evidencia a crescente articulação transnacional do cinema brasileiro. Outro destaque é a trilha sonora assinada pelo pernambucano Amaro Freitas, cuja pesquisa musical, profundamente enraizada em matrizes afro-brasileiras e indígenas, dialoga com a atmosfera do filme e amplia suas camadas sensoriais. A montagem, dividida entre Gabriel Martins e Eva Randolph, contribui para o ritmo particular da obra, enquanto a fotografia de Wilssa Esser constrói imagens que oscilam entre a intimidade doméstica e uma dimensão quase onírica.

Cena de “Nosso Segredo”, de Grace Passô

No elenco, Robert Frank (Gilson), Efraim Santos (Tutu), Jéssica Gaspar (Grazi), Flip (Guto), Ju Colombo (Suely), Marisa Revert (Anamélia), Gláucia Vandeveld (Lêda), Juan Queiroz (Sidney), Mateus Aleluia (Marcelo), Nanego Lira (Pai), Tássia Reis (Mulher no bar) dão corpo a personagens atravessados por uma dor contida, mas pulsante. As atuações seguem a lógica do filme: menos voltadas à exteriorização dramática e mais comprometidas com a construção de estados emocionais sutis, muitas vezes sustentados pelo silêncio.

A trajetória internacional de Nosso Segredo também se insere em um momento mais amplo de reconhecimento do cinema brasileiro em festivais globais. Nos últimos anos, obras de realizadores como Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro têm conquistado prêmios e visibilidade, consolidando uma presença que vai além da exotização. O filme de Passô dialoga com esse cenário, mas também se diferencia ao propor uma abordagem profundamente autoral, marcada por sua origem no teatro e por uma atenção rigorosa à palavra, ao corpo e ao tempo.

A distribuição no Brasil ficará a cargo da Vitrine Filmes, por meio do projeto Sessão Vitrine Petrobras — iniciativa fundamental para a circulação de obras independentes no circuito exibidor nacional. Mais do que garantir acesso, esse tipo de projeto contribui para a formação de público e para a sustentação de um cinema que resiste às lógicas estritamente comerciais.

A diretora Grace Passô.

Se a estreia em Toulouse confirma o alcance internacional de Nosso Segredo, ela também aponta para algo mais profundo: a consolidação de uma voz que, ao transitar entre linguagens e territórios, redefine os modos de narrar experiências negras no cinema brasileiro. Em um momento em que o audiovisual global parece cada vez mais orientado por fórmulas e algoritmos, o filme de Grace Passô aposta na delicadeza, na opacidade e na complexidade — e, justamente por isso, se torna necessário.

Mais do que revelar um segredo, o longa convida o espectador a habitar aquilo que não se resolve facilmente: o luto, o silêncio e a possibilidade de reconstrução. E é nesse espaço, entre o que se diz e o que se cala, que o cinema encontra, mais uma vez, sua força.

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Publicado por:Philos

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